João Goulart de Jorge Ferreira – Biografia.

 

As explicações das direitas, das esquerdas e dos liberais convergem para uma mesma apreciação: o comportamento, a personalidade e a incapacidade política de um único indivíduo atuaram como os fatores decisivos, se não determinantes, para o colapso da democracia no Brasil. Em uma análise tradicional, superada na historiografia e teoricamente inaceitável, o regime instaurado em março de 1964, que durante duas décadas mudou a face do país, gerando um processo político, econômico, social e cultural de grandes proporções, teria ocorrido em razão da falta de talento de um indivíduo.(citação da página 511, da referida obra).

 

Teses que sobrevalorizam a atuação das pessoas – líderes ou não – em detrimento da interpretação da conjuntura e das relações de forças me incomodam de maneira sobrenatural. Quero acreditar que essas teses surjam como carência brasileira de narrativas hollywoodianas com mocinhos e bandidos e todas alegorias inerentes a essas fábulas.

Quando a análise é demasiadamente personalística, não há intenção alguma em compreender o contexto político e institucional, apenas uma narrativa palatável ao olhar leigo de um leitor que não é da área ou que não pretende avançar na compreensão de modelos científicos – por mais que digam que humanas não é ciências.

Assim, a revolução de 1930 passa a ser vista como resultado das ações de um grande estadista (Getúlio Vargas), o Golpe de 1964 como fruto da incompetência do então presidente de ocasião (JANGO) e o impeachment de Dilma Rousseff como resultado da incompetência gerencial e arrogância pessoal desta presidenta.

Naturalmente, em momentos posteriores, surgem teses mais competentes e não hollywoodianas, como o fez, por exemplo, Argelina Figueiredo, Fernando Henrique Cardoso e Wanderley Guilherme dos Santos que despersonalizaram a tese do golpe de 1964 e explicaram, cada um a sua maneira, o contexto vivido na época.

Entretanto, as teses personalistas ainda mantêm um forte apelo no imaginário brasileiro e vasta aceitação pelo cidadão médio. Aceitar que todo o sistema político está suscetível a atuação de uma pessoa é, no mínimo, ingênuo, quando não, uma análise de má-fé.

Como as teses personalistas se assemelham às narrativas ficcionais, analistas tem preterido análises institucionais e estruturais em busca de leitores através de textos que revelam os mocinhos e bandidos.

Em tempos que curtidas em textos de facebook suplantam qualquer análise técnica,  a opção pela leitura mais palatável é lógica e mais rentável. Consequentemente, as leituras de momento sobre a conjuntura política brasileira empobreceram o debate, reduzindo a uma questão ético moral.

Max Weber, em Ciência como Vocação, descreve como o sistema universitário norte-americano e o alemão vinham incentivando o “professor de sala cheia”, não necessariamente comprometido com a ciência, mas devido aos critérios de sua sobrevivência como professor universitário, adotavam posturas mais comprometidas com as escolhas dos alunos pelos cursos :

(…) é indiscutível que os estudantes procuram um determinado professor por motivos que são na maioria das vezes – quantidade imensurável que é difícil acreditarmos em sua extensão – alheios à ciência, motivos que dizem respeito, por exemplo, ao temperamento ou à inflexão de voz. Experiência pessoal já bastante ampla e reflexão isenta de qualquer fantasia conduziram-me a desconfiar enormemente dos cursos procurados pela incontável massa de estudantes, conquanto o caso pareça inevitável. (p. 23)

Quando a motivação é diversa do comprometimento com a ciência, ou com as curtidas de facebook, a tentação de dissertar sobre o senso comum e agradar a platéia é gigantesca. Deixamos de analisar o que realmente importa para lançar luz aos factoides midiáticos, enaltecendo os mocinhos e acusando os bandidos.

Seguindo o exemplo Weberiano, adota-se a crítica ao professor, sem avaliar que sua sobrevivência depende da submissão aos critérios estabelecidos pela universidade e pelos alunos, não à sua vocação à ciência.

A análise da crise política recente se restringe ao pagamento de propinas aos políticos eleitos e um relacionamento, digamos, pouco republicano entre políticos e empresários. Esse enquadramento ignora a confusão público privado tão presente na história brasileira e institucionalizada, da mesma forma que não avança na discussão sobre as políticas macroeconômicas brasileiras e estratégias de desenvolvimento que pautam as principais divergências ideológicas do país.

Encarando o noticiário e as análises recentes sobre a crise política em curso, será mesmo que devemos reduzir a discussão a uma crise ética? Ou seja, todo o sistema político, impregnado de “vencedores” que usurparam do dinheiro público e suas benesses é culpa apenas de uma crise moral e de valores?

Acredito que devemos questionar as instituições, sem a necessidade de buscar panaceias, mas com intuito de estabelecer um diagnóstico crível sobre a realidade brasileira e as razões das repetidas rupturas institucionais pelas quais o país passou. Só assim será possível elaborar soluções viáveis para o país.

Autor: Daniel Leão Bonatti
DLBONATTI@gmail.com

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